6/30/2015

a estrutura do fundo e do medo



porque títulos aos pares

são sempre compostos

nem sempre paradoxos

mais interessantes que palavras

com ideias claras

sobre o que querem dizer,

pensar ou fazer.



Hell from far away and close up

6/08/2015

Sobre a gravidade e a estupidez


Há dias em que me sinto grande, demasiado grande para o espaço que me foi dado a ocupar. Em semelhantes ocasiões, tento estar no mundo da forma mais causal possível, tendo ainda assim em conta a estranheza que é andar por aí com um corpo maior que eu própria.

Com todo o peso que me é dado a carregar, fico manifestamente mais vagarosa. Na lentidão esperada, passa todo um mês e não escrevo uma única linha. O tempo, tal como o espaço extrapolado em que me vejo permanecer, expande-se demasiado depressa e apesar do meu tamanho sou facilmente expelida em direção à estratosfera.

Abalada, dou conta da estupidez lacinante em que me deixei flutuar. O momento pretenso termina e volto a por os pés no chão, agora com o meu volume de volta à normalidade e a gravidade a fazer finalmente o seu trabalho.

É tempo de reflectir, sob a absurda evidência que isto vai sempre dar tudo ao mesmo.


Christopher F. Foss

5/04/2015

hoje sonhei que era uma casa


hoje sonhei que era uma casa
assaltada e esventrada
sonhei a invasão
do volume
de um espaço no tempo
senti os passos
um a um
observei os que entravam
e os que saiam
os que ficavam
e nunca mais partiam
hoje sonhei que era uma casa
habitada e inundada 


Pedro Cabrita Reis, Room for a poet (2000) 
in http://raum.pt/arqa

4/15/2015

Não nada.

Perder o pé e a mão, de novo, e como sempre sofrer da frustação descontrolada causada pelo caos desarmonioso de um quotidiano sujo de todo e qualquer desinteresse próprio e alheio.

Pelo menos a escrita fica melhor.


4/08/2015

Genético ou Hereditário


Exercitar
Não fumar
Socializar
Controlar 
o colestrol
Comer bem
beber menos
Vigiar
a tensão
Evitar
doenças várias
Tratar
dos nervos
Manter 
as paixões

Viver,
depois morrer




3/25/2015

o cansaço (antes que o mês acabe)

Tenho a imaginação cansada, disse ela.
Para jantar só um bolo, disse ele.

Apneia do sono, obesidade, mau humor e falta de vontade
Com a idade tudo se justifica.

No mau gosto aplacado, apenas pela falta de conhecimento e a ignorância atroz
Admitem o sacrilégio.

Faço tudo o que acho que me apetece disse ela.
A mim falta-me o ar disse ele.


não me lembro.
















2/23/2015

a velha saga


dizia a velha saga, à saga mais nova

não sejas assim, olha que sago à mais tempo que tu e sei do que falo.  
não desistas do ócio tão facilmente e continua aflita 
a desmaiar na vida dos outros. 
saga que é saga, não abandona o posto

mas a saga mais nova, como verdadeira chata que era, 
resmungava que não. 
desta vida não queria mais nada, apenas viver horizontalmente,
a paz no mundo e a calma dos povos

e a saga mais velha desesperada, 
sagava um pouco mais

sabes, todos já quisemos desistir.
bem mais fácil é relaxar, do que continuar a sagar 
numa errância sem fé

a saga mais nova anuia então à saga presente
e continuava eterna na sua visão demente
que apenas os benditos saberão terminar heroicamente 
as aventuras dos outros, 
eternas sagas moribundas

   

david shrigley

2/18/2015

maus da fita


o primeiro a chegar a qualquer lado 
é quem manda.
o último a gritar "a culpa é tua", 
também.



2/17/2015

entre a gente

Falar de mais sempre foi um problema. Na pós graduação de antropologia, que morreu antes de se formar um mestrado, avisaram-me que argumentava muito rapidamente, e que por vezes convinha pensar um pouco antes de debitar semelhantes deliberações. Esta pessoa, que muito prezo, compreendia que este ser tinha essa forma, como já antes discutimos, mas que ainda assim, talvez não fosse menos mau fechar a boca uma vez por outra. Dois anos passaram desde este conselho, resultados práticos no dia a dia desta jóia banhada a sabedoria d'oiro?

Zero a nenhum. Ainda acho que sei imensa coisa.


2/12/2015

"não à repressão das forças policiais"

ao qual se acrescenta,
 
não à repressão de toda e qualquer manifestação
não à repressão da mente, do corpo e da vontade da forma
não à repressão de mim próprio, do outro ou daqueloutro
não à repressão das massas, das minorias e dos avulsos
não à repressão dos verbos, dos substantivos e dos nomes próprios
não à repressão do tempo ou do espaço
não à repressão moralista, intimidante, dilacerante
que faz de todos nós humanos, animais.

Cannibals Gazing at Their Victims — Goya